Sociedade

A geração que não quer ser classe média: identidade, consumo e pertencimento no Brasil de 2026

Quando perguntamos a jovens brasileiros entre 18 e 30 anos a que classe social pertencem, algo curioso acontece: muitos hesitam, desviam, ou simplesmente recusam a categoria. "Não me identifico com essas divisões" é uma resposta cada vez mais comum em pesquisas qualitativas sobre identidade e pertencimento no Brasil contemporâneo.

Esse fenômeno não é trivial. Por décadas, a ascensão à classe média foi o horizonte de expectativa de gerações de brasileiros — o objetivo que organizava projetos de vida, escolhas de consumo e aspirações políticas. O que está acontecendo com essa narrativa?

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos de Identidade e Desigualdade da UFRJ com 1.200 jovens em cinco capitais brasileiras oferece pistas. Entre os entrevistados, 61% disseram que "classe social" é uma categoria que não captura bem quem eles são. Mas quando perguntados sobre renda, consumo e acesso a serviços, as desigualdades tradicionais aparecem com clareza.

Identidade além da renda

O que os jovens estão dizendo, quando se aprofunda a conversa, é que a identidade de classe não é mais o eixo principal em torno do qual organizam sua autoimagem. Raça, gênero, orientação sexual, região de origem, cultura pop — esses marcadores parecem mais salientes do que a posição na hierarquia econômica.

"Não é que a desigualdade econômica diminuiu — ela continua enorme. O que mudou é a forma como as pessoas se relacionam com ela subjetivamente", explica a pesquisadora Dra. Helena Carvalho, coordenadora do estudo. "Há uma recusa em se definir pela posição que o mercado te atribui."

Consumo como expressão

Paradoxalmente, o consumo continua sendo um marcador de identidade importante — mas de formas diferentes das gerações anteriores. A posse de bens duráveis (carro, casa própria) perdeu centralidade. Em seu lugar, experiências, pertencimento a comunidades e expressão de valores ganham peso.

Um jovem que mora de aluguel num bairro popular, trabalha como freelancer e gasta parte da renda em shows de música independente pode ter uma autoimagem muito diferente do que sua posição de renda sugeriria. "Ele não se vê como pobre, mas também não quer ser chamado de classe média. Ele se vê como parte de uma cena, de uma comunidade", observa a pesquisadora.

Implicações políticas

Essa transformação tem consequências políticas que ainda estamos aprendendo a ler. Partidos e movimentos que organizaram sua comunicação em torno de apelos de classe encontram cada vez mais dificuldade em mobilizar jovens. As clivagens que organizam o voto jovem parecem ser outras — e mais complexas.

O Brasil está mudando. As categorias com que tentamos entendê-lo talvez precisem mudar também.

DH

Dra. Helena Carvalho

Socióloga e pesquisadora. Professora da UFRJ, escreve sobre desigualdade, raça e políticas sociais no Brasil contemporâneo.