Quando o Brasil assumiu a presidência do G20 em 2023 e depois do BRICS em 2025, o país sinalizou uma ambição clara: ser protagonista na construção de uma nova ordem global mais multipolar, onde o chamado Sul Global tenha voz mais efetiva. Dois anos depois, é hora de fazer um balanço honesto do que essa aposta rendeu — e do que ela custou.
Os ganhos são visíveis. O Brasil recuperou sua credibilidade diplomática após um período de isolamento. Voltou a ser interlocutor respeitado em fóruns multilaterais. Avançou em acordos comerciais com países africanos e asiáticos. E conseguiu colocar na agenda global temas como a taxação de super-ricos e a reforma da governança financeira internacional.
Mas os limites também aparecem. A política de equidistância entre grandes potências — que o Brasil pratica ao se recusar a escolher entre Estados Unidos e China, entre Ocidente e Rússia — tem custos crescentes num mundo que se fragmenta em blocos.
O dilema da equidistância
"O Brasil quer ser amigo de todo mundo, mas num mundo de rivalidades crescentes, isso fica cada vez mais difícil. Em algum momento, a equidistância se torna ambiguidade, e a ambiguidade tem um preço", analisa o diplomata aposentado Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da UNCTAD.
O caso mais evidente é a guerra na Ucrânia. O Brasil se recusou a condenar a invasão russa nas votações da ONU, o que gerou tensões com parceiros europeus e norte-americanos. Ao mesmo tempo, a aproximação com a Rússia no âmbito do BRICS levanta questões sobre os valores que orientam a política externa brasileira.
O Sul Global como projeto
Para além das tensões imediatas, há uma questão mais profunda: o que significa, afinal, o "Sul Global" como projeto político? É apenas uma aliança de conveniência entre países que compartilham a insatisfação com a ordem atual? Ou há valores e objetivos comuns que justificam uma identidade coletiva?
A resposta importa porque define o tipo de protagonismo que o Brasil pode exercer. Um Brasil que lidera pelo exemplo — em democracia, em direitos humanos, em sustentabilidade — tem mais credibilidade do que um Brasil que lidera apenas pela retórica anti-hegemônica.
O mundo está mudando rapidamente. O Brasil tem uma oportunidade real de influenciar essa mudança. Mas aproveitar essa oportunidade exige clareza sobre o que o país defende — não apenas o que se opõe.